Entrevista com Prof. Guilherme Henn, Patrono da CIX Turma de Medicina da UFC

22 de agosto de 2017

O Professor Guilherme Alves de Lima Henn, do Departamento de Saúde Comunitária, foi escolhido como Patrono da CIX Turma de Medicina da FAMED/UFC (Turma Dr. Álvaro Jorge Madeiro Leite). Em 03/07/2017, no Theatro José de Alencar, participou da Noite de Hipócrates, sendo homenageado.

Guilherme Henn ingressou como aluno de graduação em Medicina na UFC em 2000, tendo se graduado em 2005.2. Entre 2008 e 2013, foi Professor Substituto do Departamento de Saúde Comunitária (Disciplina de Infectologia). Em 2013, ingressou como Professor Efetivo do DSC atuando desde então nas Disciplinas de Infectologia e Internato em Medicina de Família e Comunidade.

Guilherme Henn já recebeu diversas homenagens como professor:
Turma 100 (2012.2) – Prof. homenageado
Turma 101 (2013.1) – Prof. homenageado
Turma 103 (2014.1) – Prof. homenageado
Turma 105 (2015.1) – Prof. da Aula da Saudade
Turma 106 (2015.2) – Prof. homenageado
Turma 107 (2016.1) – Prof. homenageado
Turma 108 (2016.2) – Prof. homenageado

Além de ter sido Patrono da Turma 109 (2017.1), Guilherme Henn será Paraninfo da Turma 110 (2017.2).

Diante de trajetória tão expressiva e de significativo reconhecimento como Médico e Professor, Guilherme Henn foi convidado a dar entrevista para o sítio eletrônico do DSC. Seguem abaixo suas reflexões sobre o significado das homenagens, sobre a formação médica e sobre o desafio de ser Professor da FAMED/UFC. Confira a entrevista.

1. Qual o significado para você ter sido escolhido como Patrono da 109a turma de formandos em Medicina da UFC?
Guilherme Henn: Fiquei profundamente feliz e tocado por perceber que o meu esforço valeu a pena e meu trabalho gerou frutos nos corações dos novos médicos. Já fui professor homenageado em diversas turmas anteriormente, cheguei a dar uma Aula da Saudade, o que já foi uma enorme honra. Contudo, ser convidado a ser Patrono foi algo completamente inesperado. Acho que me senti assim porque nunca pensei que fosse ser Patrono de uma turma de medicina, que dirá com apenas 11 anos de graduado. Sempre procurei imitar aqueles que foram meus professores, seres humanos formidáveis em quem procuro me espelhar… e talvez a sensação de estranheza tenha brotado do fato ser colocado ao lado de grandes expoentes da medicina cearense, e por imaginar, dentro do meu coração, que ainda precisava melhorar muito para chegar ao nível deles. De fato, este pensamento não mudou – sempre haverá muito o que aprender – e esta honraria me fez refletir e recordar que preciso me esforçar mais ainda para o bem dos meus alunos e pacientes.

2. O que faz um professor ser escolhido Patrono de uma turma de formandos em Medicina de uma das mais antigas e importantes escolas médicas do país?
Guilherme Henn: Quando do convite a ser patrono, um dos representantes da turma me disse que eu tinha sido escolhido porque os alunos me viam como um “pai” para eles. Imagino isso tenha a ver com o fato de eu procurar ser bastante próximo aos alunos. Tanto no módulo de Doenças Infecciosas quanto no Internato em Saúde Comunitária, tomo o cuidado de observá-los e chamar para conversar aqueles que têm conceitos mais baixos. Em diversas oportunidades escutei suas histórias de vida e suas dificuldades, tanto técnicas quanto pessoais. Também sempre deixo claro que estou à disposição deles sempre que precisarem discutir um caso clínico, tirar dúvidas, ou apenas desabafar, mesmo fora do contexto das atividades da faculdade. Percebo que essa proximidade transmite um pouco de conforto aos alunos, que se sentem, muitas vezes, acuados pela pressão que o curso exerce.

3. Quais os desafios para um professor de Medicina nos dias de hoje?
Guilherme Henn: Penso que nosso maior desafio é nos reinventar para nos adaptarmos às mudanças que o tempo traz, tanto as tecnológicas, quanto às advindas dos anseios dos estudantes. Na área de doenças infecciosas, especificamente, os métodos diagnósticos e recomendações terapêuticas mudam numa velocidade enorme, e a atualização a cada semestre é imprescindível para mantermos o nível de excelência na parte técnica. Do ponto de vista estrutural, o curso médico oferecido em nossa faculdade tem modificado suas diretrizes curriculares ao longo do tempo, e também devemos nos obrigar a moldar nosso modo de ver e ensinar a medicina. Acima de tudo, manter o coração aquecido com o desejo de formar pessoas equilibradas – antes de bons médicos – é um exercício difícil e necessário, em um contexto de cansaço e desilusão que às vezes se abate sobre o docente ao longo da carreira.

4. Como um professor pode inovar e conquistar os jovens estudantes de Medicina?
Guilherme Henn: “Conquistar” o coração dos estudantes é quase uma obrigação se o professor objetiva otimizar o rendimento de seus alunos. O primeiro passo para chegar lá é repetir para si mesmo um mantra – o de que o fruto do meu esforço será o de vidas salvas, dores aliviadas, sofrimentos consolados. Ao compreender e aceitar este conceito, torna-se muito mais fácil aplicá-lo nas aulas. Isso se traduz em um processo ensino-aprendizagem mais leve e didático, contato mais próximo com os estudantes e melhor rendimento para todos.

5. Quais as melhores práticas pedagógicas que podem ser empregadas para o ensino da Medicina nos dias de hoje?
Guilherme Henn: A melhor prática pedagógica possível é aquela que leva o aluno a praticar o que aprendeu em sala – seja o contato com o paciente, seja em práticas de campo, em atividades que estimulem o trabalho em equipe, por exemplo. Convencer o aluno que aquilo que se pretende transmitir será importante para ele como pessoa ou profissional é imprescindível para o sucesso do processo ensino-aprendizagem.

6. Quais os melhores cenários de prática para o ensino da Medicina em nosso Estado?
Guilherme Henn: Penso que a atual proposta curricular de nossa escola médica, embora longe da perfeição, tem caminhado, acertadamente, para longe do antigo modelo hospitalocêntrico no qual o ensino médico se apoiou durante muitas décadas. Com o fortalecimento progressivo da Atenção Primária à Saúde (APS), apoiada nas políticas públicas que fundamentam o Sistema Único de Saúde, e que, mais recentemente, buscaram preencher os grandes vazios de assistência médica nas áreas menos favorecidas do país, as unidades básicas de saúde têm se fortalecido como excelentes campos de ensino. A forte atuação dos Médicos de Família e Comunidade que fazem a ligação da Academia com os cenários de prática na APS, paralelamente ao o crescimento da ocupação de vagas de residência nesta área, e a estruturação dos módulos de Assistência Básica à Saúde e do Internato em Saúde Comunitária, tem gerado interesse crescente dos estudantes de medicina. Embora com dificuldades estruturais importantes, o complexo hospitalar universitário continua a funcionar como cenário de prática hospitalar de excelência e segue sendo a unidade de referência de ensino de medicina interna a nível terciário de nossos estudantes.

7. Quais as principais dificuldades e desafios que um professor de Medicina encontra hoje para a prática do bom ensino médico?
Guilherme Henn: A adaptação às mudanças de realidade que permeiam a medicina e o que se considera um “bom ensino da arte médica” é um bom exemplo de uma dificuldade pessoal que tive. Tenho formação de clínico, quase exclusiva na Atenção Terciária, basicamente tratando pacientes com doenças infecciosas complexas e, quase sempre, em ambiente hospitalar. Quando retornei à faculdade como docente, me vi inserido em um ambiente que me ensinou a pensar e me obrigou a ver a Medicina como uma ciência muito mais ampla e complexa que a profissão com a qual eu tivera contato até então. Tive certa dificuldade em modificar certos conceitos distorcidos que estavam entranhados em minha alma de médico-cientista, mas hoje consigo ler, de maneira bem mais clara, como formar um bom médico é um processo penoso, e complexo, que requer uma visão muito mais ampla que a que costumamos absorver fora do ambiente acadêmico.

8. Como você vê a postura, as demandas, as necessidades dos estudantes de Medicina atualmente?
Guilherme Henn: Tenho percebido, ao longo dos últimos anos, piora da “qualidade mental” dos alunos. Como converso muito com eles, especialmente com os que têm mais dificuldade, percebo que são cada vez mais prevalentes condições como transtornos depressivos, de ansiedade e de personalidade, uso abusivo de álcool (algumas vezes acompanhado de drogadição), apenas para citar alguns. Os alunos têm chegado, com cada vez mais frequência, com fácies estressadas, cansadas e abatidas, como que pressionados além do que podem suportar pelas exigências do curso médico, das perspectivas estressantes de trabalho futuro, da concorrência com os próprios colegas e com os médicos oriundos de outras escolas médicas locais. O comprometimento do rendimento é evidente. Penso que seria salutar envidar mais tempo no desenvolvimento pessoal dos estudantes, eliminando qualquer forma de “terrorismo” embutido nas aulas e atividades dos módulos do curso médico. Sou um defensor da ideia que o máximo de conforto (físico e mental) deve ser oferecido aos estudantes, porque de nada vale formar um excelente técnico em medicina cuja mente não consegue se equilibrar de forma a atender aos anseios dos pacientes que o procurarão.

9. Qual o papel do Departamento de Saúde Comunitária na formação Médica em nossa FAMED?
Guilherme Henn: O DSC tem possuído papel de protagonismo na Faculdade de Medicina desde seus primórdios, ainda como Instituto de Medicina Preventiva (IMEP) ao final da década de 1950, passando pela criação do departamento propriamente dito, nos anos 70, até a criação do Mestrado em Saúde Pública e do Doutorado em Saúde Coletiva, respectivamente, nas últimas duas décadas. Tal protagonismo se dá em todos os aspectos da formação médica – no ensino, com crescimento em quantidade e qualidade dos módulos ofertados na graduação médica, que permeiam os quatro primeiros anos da grade curricular, complementados pelo estágio do Internato em Saúde Comunitária; na pesquisa, com um programa de pós-graduação forte, bem qualificado, e que produz ciência de excelente qualidade; e na extensão, com os vários projetos capitaneados por professores do departamento. Acima de tudo, o DSC se diferencia inteiramente dos demais departamentos da FAMED por representar um espaço plural, dentro do qual a transdisciplinaridade tão necessária à boa formação médica é exercitada e fornece, ao estudante de medicina, a oportunidade de experimentar uma medicina que foge aos velhos padrões hegemônicos enraizados no imaginário dos acadêmicos.

10. Quais os conselhos que você deu aos formandos que lhe homenagearam?
Guilherme Henn: Permeei meu discurso com ensinamentos que pessoalmente tive com o Prof. Álvaro Leite (homenageado como nome da turma) e fazendo um paralelo com meus próprios aprendizados como “pai de primeira viagem”, já que o momento quase coincidiu com o nascimento do meu primeiro filho. Em linhas gerais, sugeri que nunca deixassem de ensinar a quem os solicitasse conhecimento, pois conhecimento transmitido, em medicina, é vida salva, sofrimento aliviado, dor consolada; ressaltei o paradoxo que vivemos na profissão médica, de gozarmos de evolução científica tremenda, e, ao mesmo tempo, estarmos nos distanciando cada vez mais de nossos pacientes – e orientei-os a não cair nesta armadilha; lembrei-os de buscar, diuturnamente, compadecer-se dos doentes, procurar a beleza em construir pontes com as pessoas por meio de gestos simples – um aperto de mão como saudação, palavras de conforto, o cuidado e o carinho especialmente com os pacientes mais carentes, que também são aqueles que mais nos ensinam. Alertei-os a descer do pedestal de falsa superioridade no qual muitos médicos insistem em se colocar, tanto em relação aos pacientes quanto aos demais profissionais de saúde; e, na esteira desta pseudoglorificação pessoal, deixei claro que eles devem ver sua remuneração como consequência de seu trabalho bem-feito, nunca como finalidade – o bem-estar dos doentes é nosso real objetivo. Finalizei ressaltando que o mês de junho de 2017 foi muito especial para mim, por eu ter ganho 56 filhos (meu filho bebê mais os 55 formandos desta turma).

 

   
 Prof. Guilherme Henn na Noite de Hipócrates  Prof. Guilherme Henn em sala de aula